Em um único dia, duas comissões do Senado Federal aprovaram propostas que, juntas, podem abrir um rombo de R$ 77 bilhões nas contas públicas. A análise é do jornalista Tales Faria, publicada no Correio da Manhã. Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), foi aprovada uma PEC que cria regras especiais de aposentadoria para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias — um custo estimado pelo Ministério da Fazenda em R$ 30 bilhões. Na Comissão de Assuntos Sociais (CAS), passou o projeto que eleva o piso salarial de médicos e dentistas para R$ 13,6 mil em jornada de 20 horas semanais, com impacto calculado em R$ 47 bilhões.
O presidente da CCJ, Otto Alencar (PSD-BA), integrante da base governista, admitiu a Tales Faria que não tinha como barrar as votações: todos os líderes partidários, inclusive o do PT, Rogério Carvalho, encaminharam a favor. A explicação é política e direta. “O problema é que estamos novamente às vésperas de uma eleição e nenhum partido quer entrar em choque com as diversas categorias que estão batendo na porta do Congresso em busca de aumentos salariais”, declarou o senador. Alencar ainda destacou um alerta feito em plenário pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que revelou estar represando outros 31 projetos de reajuste de pisos salariais e redução de jornadas de trabalho.
Para Tales Faria, as pautas-bomba funcionam como moeda de troca no jogo de pressões entre Legislativo e Executivo. Ao expor publicamente os 31 projetos represados, Alcolumbre sinaliza ao governo que tem munição além da pauta do fim da escala 6×1 — e que pode liberá-la caso o Planalto não apoie seus aliados no Amapá. Otto Alencar vai além no diagnóstico e aponta uma raiz estrutural do problema: “O país vai à falência se continuar com eleições de dois em dois anos.” A solução, segundo ele, passaria pela unificação dos pleitos — proposta já aprovada na CCJ, mas ainda sem avanço no plenário.
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